sábado, 20 de outubro de 2012

A cultura do medo

'Sob Constante Ameaça' mostra obras de artistas brasileiros e estrangeiros. Veja alguns trabalhos


Em um quarto branco, um homem sem camisa e usando capacete com as estrelas e cores da bandeira dos EUA se arremessa contra as paredes até desmaiar. 

Em outra situação, uma rua vazia se transforma em um cenário de caos após um violento e barulhento bombardeio de objetos como pedras, capacetes, cabos de vassoura, ferramentas, tonéis, rodas, pneus, baldes e até eletrodomésticos.

Os dois vídeos fazem parte de Sob Constante Ameaça, exposição que reúne artistas estrangeiros e brasileiros cujas produções tratam de diferentes formas a cultura do medo. Parceria entre o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS) e a Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, a mostra será aberta sábado, às 17h, na Casa de Cultura Mario Quintana e permanece em cartaz até 2 de dezembro nas galerias Xico Stockinger e Sotero Cosme. Paralelamente, um ciclo de cinema com 10 filmes começa terça-feira na Sala P.F. Gastal, na Usina do Gasômetro.

Sob Constante Ameaça é uma coletiva que apresenta produções de 15 artistas, a maioria com trânsito no circuito internacional. Em comum, seus trabalhos tratam da sensação de ameaça e insegurança na atualidade. Marks, o registro em vídeo da performance em que o americano Skip Arnold se arremessa contra as paredes, sugere questões como aprisionamento, vigilância, punição e falta de liberdade. Ou também o homem como sua própria ameaça e fonte de risco. Já O Século, registro em vídeo da intervenção urbana dos brasileiros Cinthia Marcelle e Tiago Mata, remete a violência, conflitos e caos com sua chuva de objetos em uma pacata rua. As ruínas da modernidade e os vestígios humanos são o interesse de Cyprien Gaillard, francês que, em Cities of Gold and Mirrors, propõe uma arqueologia do futuro ao identificar na arquitetura elementos da degradação dos tempos. 

A guerra e seus traumas é um dos interesses do vietnamita Dinh Q Lê. Na videoinstalação The Farmers and the Helicopters, já apresentada no MoMA, de Nova York, ele trata da Guerra do Vietnã, intercalando cenas de paisagens do país e helicópteros com entrevistas de vietnamitas que relatam lembranças da época. Os depoimentos impactam pela forma como as imagens dos helicópteros ainda permanecem no imaginário de muitos sobreviventes – não só como ameaça bélica, mas como um signo do desenvolvimento. O militarismo aparece também em Inimigo Invisível. O vídeo do brasileiro Guilherme Peters, que participou da última Bienal do Mercosul, acompanha, como um game, um soldado que avança em meio a tiros e bombardeios.


Os destaques 

Romain Gavras

O grego estabelecido na França dá sequência ao cinema politizado do pai, o cineasta Costa-Gravas. Em Stress (2008), videoclipe da dupla Justice proibido em diversos países, Romain aborda a violência urbana com um grupo de jovens que praticam atos de vandalismo pelas ruas de Paris. Em Born Free (2010), videoclipe da cantora M.I.A. presente na exposição, ele fez um filme documental com policiais que perseguem e massacram um grupo de ruivos, uma alegoria que discute conflitos envolvendo grupos étnicos.

Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado

A artista mineira documenta suas intervenções urbanas e ambientais com vídeos e fotografias. Com passagens por mostras internacionais, Cinthia já participou das bienais de Havana, Lyon e São Paulo. Também tem obras no Instituto Inhotim (MG). Ao lado do diretor e crítico de cinema Tiago Mata Machado, ela apresenta na Capital o trabalho O Século. O vídeo mostra um barulhento e violento bombardeio de objetos em uma rua pacata, sugerindo como os conflitos e o caos podem eclodir em algum ponto a qualquer momento.

Skip Arnold

O performer americano usa o corpo para criar situações de risco e desconforto para o próprio artista. Em uma de suas performances, instalou-se pelado embaixo de uma lâmina de vidro no chão da feira Art Basel, na Suíça, fazendo com que os visitantes tivessem que "pisar" sobre ele para entrar no prédio. A exposição na Capital apresenta Marks, um trabalho registrado em vídeo em 1984. Em um pequeno quarto branco, o performer se arremessa contra as paredes, sangra e desmaia após 13 minutos de pancadas e tombos.

Shaun Gladwel

Um dos principais artistas contemporâneos da Austrália, Shaun Gladwel trabalha com vídeo, performances, pintura e escultura. Já participou das bienais de Veneza, São Paulo e Sidney. Na videoinstalação Double Balancing Act, o artista faz um retrato duplo: de um lado, um soldado equilibra sua arma; do outro, um performer usa muletas – Gladwel investiga as sequelas físicas e o tédio da guerra. Parte do vídeo foi realizada quando o artista se incorporou às tropas australianas em 2009, durante a Guerra no Afeganistão.

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